10
Dez 17
publicado por Tempos Modernos, às 17:11link do post | comentar

José Saramago disse algumas vezes que o comité Nobel não atribuía o prémio a escritores de países com vencedores ainda vivos. Não será bem assim. Neste momento coexistem alguns vencedores do mesmo país.

Não será bem, como Saramago dizia, e já na altura não seria bem assim. Nadine Gordimer, por exemplo, estava ainda viva quando entregaram o prémio ao igualmente sul-africano Coetzee. Hoje, coexistem, os norte-americanos Toni Morrison e Bob Dylan; os franceses Le Clézio e Modiano; os britânicos, curiosamente ambos de origem exótica, V.S. Naipaul e Ishiguro; e Gao Xingjian e Mo Yan, da China cujos escritores andaram quase 100 anos arredados do prémio

 

A comunicação social engole bem estes leitmotivs. Aprecia generalidades e repetições. Ao contrário do que se esperaria, a novidade nunca é bem-vinda. Embora nos últimos anos alguns temas em redor do Nobel tenham esmaecido, durante muito tempo havia dois tópicos recorrentes, abertura do grosso dos comentários sempre que o Comité Nobel anunciava o novo vencedor:

 

  1. Os escolhidos são sempre de esquerda, esquecendo-se (até chegar a merecida vez de Vargas Llosa) de gente como o inesperado Churchill, ou dissidentes de leste como Pasternak, Soljenitsín, Seifert, Brodski;
  2. O prémio não vale nada que os melhores, não o ganharam (e lembravam Kafka e Pessoa, que ninguém conhecia antes de morrerem).

Mas ao contrário do que se esperaria, a repetição de factos faz pouco pela aprendizagem. Alguns ainda hoje se admiram com as escolhas suecas. Vêem surpresa em muitos vencedores. Um editor de cultura de uma revista norte-americana nunca tinha ouvido falar de Le Clézio. E os jornalistas portugueses lêem muito a imprensa anglo-saxónica que se espanta com o que não conhece. Se conhecessem o catálogo da Assírio & Alvim não se teriam espantado. Mas existe uma espécie de complexo adâmico em muita desta gente. Não descobriu ainda que já existia mundo antes de nascerem.

 

Mas direito (mais ou menos) ao que interessa. Como adivinha quem será o próximo Nobel da Literatura? Há uns anos fiz uma lista de futuros vencedores da coisa. Mandei-a amigos. Já de lá caíram vários autores. Alguns caíram mortos, outros caíram por terem vencido o prémio.

 

Não há nenhuma ciência nestas listas. E os prémios literários também já não são o que nunca foram. Com isto assentado, nenhuma lista é objectiva ou vale grande coisa, embora os jornais gostem de as publicar e os leitores gostem de as ler. Suscitam discussão, geram pasmo, motivam discordâncias. Na melhor das hipóteses, dão a descobrir coisas que não se conheciam e abrem o apetite para outras

 

Há algumas línguas de grande projecção universal, com forte peso cultural, ao menos nos meios ocidentais. O inglês, o francês, o espanhol, o alemão, o italiano e o russo, mais limitados no alcance. Será natural que saiam vencedores de países que falem estas línguas. Primeiro dos grandes países que falam estas línguas, depois das suas antigas colónias. Principalmente das que tenham uma vida editorial mais estabilizada e com tradição, como é o caso das sul-americanas.

 

Interessam também algumas línguas muito faladas mas com pouca expressão no Nobel. Mostram o seu peso no mercado editorial mundial. Português, Árabe, Chinês, Hindi, Japonês.

 

Dos países que falam estas línguas, há um grupo grande de escritores de projecção mundial. São dos primeiros a considerar. E apontar aos autores maduros. Raramente a coisa é dada a gente abaixo dos 50, como Kypling, Camus, Lewis, Brodsky. Depois, há as idiossincrasias de cada língua e cultura. Alguns autores não se enquadram neste esquema quase pronto-a-vestir. Veja-se o holandês Cees Nooteboom, cujo país nunca teve galardoados, mas cujo nome aparece com frequência nas casas de apostas como favorito.

 

O inglês é divido por muitos outros países como língua comum. Grã- Bretanha e EUA, como é evidente. Depois os norte-americanos fazem sombra e abafam culturalmente um grande vizinho falante da mesma língua como o Canadá. Entre os países referentes do inglês, em modo ocidental de produção, espaço ainda para a Austrália, Nova Zelândia e África do Sul. Entram todos no mesmo circuito editorial ocidentalizado. Ainda assim, mesmo vir destas bandas quer dizer pouco. A contista canadiana Alice Munro (2013) é uma muito recente vencedora, de um país que tardou mais de um século a entrar no clube do Nobel da Literatura. A Nova Zelândia nunca venceu e a África do Sul teve durante muitos anos o apartheid contra ela. De outros países anglófonos esperam-se surtos exóticos e episódicos, para abrir o leque, como o nigeriano Wole Soyinka (1986). Os finalistas e vencedores de prémios como o Booker serão preferenciais na feitura da lista. Bem como os do norte-americanos National Book Award e Pulitzer.

 

Com a Grã-Bretanha ainda agora premiada é pouco provável que nos próximos tempos a escolha recaia por aquelas bandas. Ao Canadá também chegou Nobel recentemente pelo que Margaret Atwood, Douglas Coupland, Michael Ondaatje ou Naomi Klein não devem estar na calha. O mesmo se passa com os Estados Unidos, com Don Delillo, Cormac McCarthy, Thomas Pynchon, Philiph Roth na linha da frente. Da Austrália, para onde o galardão foi uma vez, com a vitória de Patrick White, em 1973, Peter Carey, Thomas Keneally e David Malouf são possibilidades.

 

O peso cultural da França abafa o das suas antigas colónias, onde a língua francesa coexiste muitas vezes com outras línguas fortes ou até dominantes como o árabe. A África subsaariana, francófona, está demasiado afastada do mercado ocidental de edição e destes circuitos. Um Nobel falante de francês tende a vir da antiga metrópole. A lista dos galardoados com o Gouncourt, Renaudot e com o Fémina podem ajudar a antecipar escolhas, se bem que Claude Simon nunca tenha vencido nenhum desses prémios. Aqui seria de alinhar com Saramago: com dois vencedores vivos talvez seja de adiar.

Abertura para escritores como o libanês Amin Maalouf, o argelino Boualen Sansal, o marroquino Tahar Ben Jeloun, ou para Adonis, poeta sírio de língua árabe a viver em França, e há muito tempo favorito.

 

Tanto Espanha como as antigas colónias castelhanófonas têm massa específica própria. Um mercado editorial e escritores de grande projecção com entrada nas feiras e circuitos mundiais. Olhar para os laureados do Cervantes, do Príncipe(sa) das Astúrias e do Rainha Sofia ajuda a compor a lista. E os dois últimos estão até abertos a gente de outras línguas.

 

Há outras duas línguas, pesos pesados culturais, mas sem que tivessem tido por trás uma dimensão colonial duradoura que as exportasse. O alemão é partilhada por alemães, austríacos e suíços e uma ou outra comunidade fora de portas. O italiano remete-se quase apenas ao seu próprio espaço interno. No caso da língua alemã olhe-se primeiro para o Buchner (Böll, Grass e Elfried Jelinek receberam-no) e para o Goethe, não exclusivamente literário. No do italiano para os Strega e Villaregio, mas apenas para efeitos de fazer esta lista, pois nunca nenhum dos seus premiados venceu o Nobel, mesmo que muitos, como Calvino ou Pavese, fossem nobelizáveis. Claudio Magris é um candidato recorrente.

 

No português, que demorou quase 100 anos a ter o seu primeiro Nobel da Literatura, a coisa é mais evidente (para mim) no que toca aos escritores de Portugal. Lobo Antunes está na vanguarda, mas então e Nuno Júdice ou mesmo Agustina? E no Brasil não faltam opções, talvez com Rubem Fonseca à cabeça. E depois de Dylan, embora se saiba que foi uma flor, para mostrar radicalismo, não seria de desdenhar Chico Buarque. Para abrir o leque a outras nacionalidades, atenção ao Camões, aos prémios da Associação Portuguesa de Escritores e ao desdobrado Jabuti. E o angolano José Eduardo Agualusa nunca venceu nenhum desses prémios, mas parece ter o perfil internacional adequado.

 


27
Out 17
publicado por Tempos Modernos, às 11:51link do post | comentar

Títulos como este fazem tocar a rebate muito sino partidário.

Não ganharia a Marcelo Rebelo de Sousa, mas em tendo condições pessoais Manuel Carvalho da Silva poderia pensar na velha ideia de concorrer a Belém. Seria um candidato capaz de fazer um pleno de apoios à primeira volta.

 

 


18
Out 17
publicado por Tempos Modernos, às 09:31link do post | comentar

As mortes nos comandos não permitiam a continuidade do CEME, nem do ajudante-general do Exército e da chefia do Serviço de Saúde Militar, nem das chefias do regimento.

 

O alegado assalto a Tancos não permitia a continuidade do CEME, nem do quartel-mestre general, nem dos comandantes das cinco unidades que garantiam a segurança do paiol.

 

A condução política que permitiu tantas continuidades (alguns saíram por divergências com o CEME, entretanto) não permite a continuação do Ministro da Defesa (e nem do CEME).

 

Com a esperada e inevitável queda da ministra da Administração Interna, o reajuste devia seguir noutra das pastas de soberania.


17
Out 17
publicado por Tempos Modernos, às 10:41link do post | comentar

Há pouco tempo, o canto da varanda, um bloco maciço de cimento e ladrilhos, com perto de um quilo, caiu da altura de um quarto andar, sem que se tivesse dado pela fractura iminente.

 

Era fim-de-semana e iniciou-se a ronda das capelinhas, quem interditaria a vertical do prédio de maneira a impedir acidentes com as pessoas e as viaturas que habitualmente estacionam no passeio debaixo das varandas.

 

Passou-se pela PSP e pelos bombeiros e acabou-se a falar a um domingo com o responsável da protecção civil do concelho.

 

Explicou-se ao simpático senhor que almoçava com a família que podia ser domingo, mas convinha fazer qualquer coisa no imediato, pois ele adiava para o dia seguinte.

 

Entre ele vir colocar obstáculos à circulação no passeio - que impedissem estacionamentos e a passagem de pessoas - e iniciar uma obra poderia voltar a cair qualquer coisa e morrer alguém.

 

Apesar da primeira resistência, não foi difícil convencê-lo a vir. Mas depois não contactou ninguém para perceber melhor a situação. E fez asneira. Ao chegar, instalou os obstáculos e foi-se embora. Ficaram sob a varanda errada.

 

Os donos da varanda lá corrigiram a situação, arrastaram os pinos e as faixas delimitadoras para debaixo da varanda certa. Não contavam era com os vizinhos. Ao longo dos dias seguintes, até se iniciar a obra imediatamente pedida, os obstáculos foram sendo retirados, mudados de sítio, reajustados na posição. Havia quem estacionasse ali, as pessoas continuavam a passar por lá.

 

Havia sempre alguém que mexia nas balizas e as mudava de sítio como se não estivessem ali para minimizar o risco potencialmente fatal da queda vertical de calhamaços de cimento e ladrilhos. Não lhes ocorria que aquele estendal tinha uma qualquer justificação, nem mesmo tendo pespegada a identificação da protecção civil concelhia. Pensavam lá que pudessem estar a matar alguém.


14
Out 17
publicado por Tempos Modernos, às 11:51link do post | comentar

Salvo erro, era para As Naus que António Lobo Antunes tinha um título de que foi forçado a desistir por já haver já um livro com o mesmo nome. Deve ter deixado de ser obstáculo. Mas

 

E, contudo, não faz absolutamente nenhum sentido editorial ou comercial que se publique um livro de um jornalista com o mesmo título do mais que clássico e fundador romance de não-ficção de Truman Capote.


13
Out 17
publicado por Tempos Modernos, às 14:53link do post | comentar

Coisas cujas raízes se explicaram aqui.


10
Out 17
publicado por Tempos Modernos, às 13:06link do post | comentar

Rui Rio é uma há muito adiada grande promessa do PSD. Pedro Santana Lopes é uma há muito adiada grande promessa do PSD.


publicado por Tempos Modernos, às 13:04link do post | comentar

Bernardo Ferrão diz que Pedro Santana Lopes é um animal político e a gente ri-se. Como é que certa gente chega à direcção de um dos mais importantes órgãos de comunicação social portugueses?


publicado por Tempos Modernos, às 12:54link do post | comentar

Mais vale tarde que nunca, mas o Governo não precisava da notícia de que os postos de vigia florestal estavam fechados para os mandar reabrir, pois não?

 

Já há vários dias que regressaram os incêndios florestais e as temperaturas que se têm registado assim como as previstas para os próximos dias são manifestamente anormais para a época do ano.

 

O resto dos factores pode não ser de grande risco, mas ainda assim o Ministério da Administração Interna age como se não devesse ter mais cautelas e não fosse melhor prevenir do que remediar.


09
Out 17
publicado por Tempos Modernos, às 09:40link do post | comentar

A falha de apelos à concórdia do discurso de Filipe VI antecipa que a Espanha não voltará a ter uma rainha.

 

O pai de Leonor defendeu uma divisão que acabará cobrada aos Borbóns.

 


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