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Mar 13
publicado por Tempos Modernos, às 16:52link do post | comentar

 

(Foto: presidencia.pt)

 

 

Quando, dentro de três anos, deixar o palácio de Belém, a bordo de um helicóptero, para escapar às vaias do povo, Cavaco deixará saudades a Maria João Avillez, Marcelo Rebelo de Sousa, uma mão por completar de hermeneutas presidenciais, pouco mais.

 

Depois de trinta e tal dias de silêncio, Cavaco lançou o sétimo volume dos Roteiros, os seus discursos presidenciais, onde o mais relevante - e a crer nos analistas, nem isso - terá sido o auto-justificativo prefácio. Ora, a auto-justificação é para quem não tem poder, para quem não tem tribuna. Cavaco tem isso tudo. A acção presidencial, a havê-la, é auto-explicativa. 

 

A teoremática formulação de que o protagonismo presidencial é inversamente proporcional à sua influência carece de demonstração. Lembro-me sempre de um antigo professor de Análise Matemática dizer numa aula prática que era fácil inventar teoremas. Difícil era que servissem para grande coisa. Positivista, o académico social Cavaco vai mais longe. Estabelece leis sociais, mas não se dá sequer ao trabalho de as demonstrar, como exigem os teoremas.

 

E o secretismo está longe de assentar bem às democracias. A publicidade dos actos dos detentores de cargos públicos é aliás uma das principais virtudes destas. E depois, Cavaco nem sempre tem sido tão discreto como agora diz ser. Com Sócrates não faltaram alfinetadas públicas e ruidosas. A vingança serviu-a no prefácio dos discursos do ano passado. Duvida-se que não a venha a pagar. O ex-primeiro-ministro nunca teve feitio fácil.

 

Em Roteiros, Cavaco afirma-se como o homem providencial, o homem certo, no lugar certo - o que infelizmente poucos parecem notar. E quanto à Europa, embora inconsequente, até diz coisas acertadas. O pior é o resto. Entre o muito que desta feita Cavaco afirma não poder dizer no prefácio lá confessa a participação activa e responsabilidade na obtenção do acordo de concertação social (não se percebem os motivos da gabarolice) e sugere ter impedido a ruptura entre os partidos da coligação governamental (tretas, Paulo Portas nunca planeou sair do Governo: as críticas a Passos Coelho visam, isso sim, garantir um lugar num próximo Executivo). 

 

Cavaco, como de costume, tenta tirar o corpo fora. Fora de Cavaco, nada interessa a Cavaco. Fátima Bonifácio, que votou nele, dizia ao Público, na semana que passou, que a principal preocupação de Cavaco é "ficar sempre bem na fotografia". Não o vai conseguir. E o falhança será mais que merecido.


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