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Jun 13
publicado por Tempos Modernos, às 10:45link do post | comentar

É fácil transformar uma notícia em opinião. Veja-se o lead de peça apresentada ontem na SIC.

 

"Depois das consequências para a economia dos longos períodos de greve em 2012, as atenções voltam-se de novo para a zona portuária. O sindicato dos estivadores denuncia..."

 

No primeiro período apresenta-se o que se considera "O Facto": Greve longa teve consequências na economia. Não há fonte para a questão do  impacto económico. É puro senso-comum apresentado como axioma. Tal como é factual e absoluto o ter também resultado da greve.

 

Logo a seguir, diz-se que o "sindicato dos estivadores denuncia..." Aqui já se admite um ponto de vista, que mais à frente será contraditado, como mandam as regras, pelo ponto de vista dos seus empregadores. O que ocorre nos portos é atribuído. Já não é senso-comum. Há uns que dizem umas coisas, outros que dizem outra. O que sucede nos portos, é um puro caso de luta de interesses e direitos. Um combate de relativos.

 

O que é dado em termos absolutos, factuais, exactos é a ideia de que a greve, feita pelos estivadores, tem impacto na economia. Claro que terá, mas o efeito desse impacto é tão construído como os pontos de vista de estivadores e empregadores. Mas o jornalista dá-o como adquirido, como legítimo. Não o dá como tendo origem num gabinete de assessores ministeriais com interesse em denegrir a imagem dos estivadores em greve. É o jornalismo a tomar partido em vez de informar.

 

Quando se fala cada vez mais da necessidade de crescimento económico, uma greve com impacto na economia afasta a compreensão dos espectadores mais dispostos a culpar os rotos pela sua miséria. E são tantos.

 

O que não falta por aí são peças com a conclusão pronto-a-vestir logo à cabeça, notícias prontas a disparar sobre os grevistas, opinião com gato escondido. Eu fiz engenharia. Não estudei os sentidos que encerram as frases, a insustentável leveza de um testemunho, de um ponto de vista. Não me ensinaram os abismos onde caem os factos em estado puro. Mas a maior parte dos jornalistas fez ciências da comunicação, cursos onde se estudam estas coisas. É impossível não saberem o que estão a fazer.

 

 


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