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Jan 17
publicado por Tempos Modernos, às 12:23link do post | comentar

Parece que a mais importante conclusão que se vai podendo tirar do IV Congresso dos Jornalistas é que não se realizava há quase 20 anos. Essa expressão não faltou em nenhum dos mails que recebi da organização. Infelizmente, a frase é usada como uma acusação, em vez de servir uma explicação necessária.

 

Desisti de ir ao congresso e de nele intervir nos minutos imediatamente a seguir a abrirem as inscrições. Desisti de lá ir depois de o ver já tão pronto-a-vestir, com comissões e regulamentos fechados e sem ter visto a sua prévia discussão aberta à classe, de modo sério, continuado e abrangente.

 

Recebi o e-mail e inscrevi-me mal me foi possível, menos de dez minutos após a abertura de inscrições. Dos resultados da prévia e necessária discussão descentralizada não tive ecos, ninguém se deu ao trabalho de os fazer circular pela classe. Antes, houve umas tantas reuniões, mas a reunião de Lisboa, a que queria ir, foi anunciada com uma semana e picos de antecedência e em altura em que me encontrava fora – mas isso é problema meu.

 

Sem ecos públicos, e realmente disseminados, de discussões, de temas, de questões em causa, de nomes, deparei imediatamente com uma comissão organizadora completamente constituída e com um regulamento – tudo pronto e aprovado num processo cuja transparência em nenhum momento foi clara. Se fizeram tudo isso entre a reunião de jornalistas a que não pude ir (reuniões cujo funcionamento caótico conheço) e no escasso tempo que se seguiu até ao anúncio das duas coisas, parece-me que fizeram um trabalho altamente eficaz e bem dirigido.

 

Quanto à comissão, não faço ideia de onde terá caído, quais terão sido os critérios para convidar aqueles jornalistas e não outros, quem os terá discutido, quem lhes terá achado condições para a função. Está lá gente que estimo, mas a quem nunca ouvi uma ideia de jornalismo que os distinga da paisagem instalada; está lá gente com intervenções conhecidas a favor do jornalismo e dos jornalistas; está por lá, também, gente absolutamente responsável pelo estado a que o jornalismo chegou. E há faltas. Faltas que um bocadinho de sentido institucional, de respeito e de reconhecimento teria colmatado.

 

Do regulamento, que chegou aos índios tão pronto e finalizado como a comissão, gostaria de perceber o sentido da ideia de pré-submeter com mais de um mês de antecedência as comunicações ao Congresso e qual terá sido a intenção. Também não se percebem quais os critérios de publicação das comunicações e da sua votação.

 

Depois, algumas notas que gostava de ver respondidas pela organização e pelos meus camaradas envolvidos.

 

Andam por lá vários estudantes. A que título, com que pagamento? São voluntários? É uma espécie de pré-estágio para irem convivendo com estágios com trabalho, mas sem retribuição digna ou mesmo sem retribuição? Quem paga o Congresso? E o que pensam de reservar aos habilitados com cursos de comunicação social e afins o acesso a uma função decisiva para a democracia - como se ser jornalista dependesse de uma formação específica como as que se obtêm quando se estuda para médico, advogado ou engenheiro e não da capacidade de cumprir os dez pontos do seu código deontológico e de responder a seis perguntinhas simples e infantis: O Quê, Quem, Quando, Onde, Porquê, Como?

 

Querem que ser jornalista seja pertencer a um gueto, fora da sociedade, um grupo reprodutor dos tiques e escassas ideias da maioria dos professores e formadores da profissão? Limitar ainda mais o pluralismo de origem e de ideias, de uma profissão cujo acesso está absolutamente condicionado por critérios que entregam a decisão de quem entra e de quem fica aos donos do negócio e a quem o domina?

 

E que sentido faz misturar e sentar num mesmo painel, projectos digitais independentes, pertencentes a jornalistas, coisas interessantes e necessárias, mas de nicho, e que terão compreensíveis dificuldades de financiamento (saúde, Samuel; saúde Sofia), e projectos milionários, de orientação vulgar e habitual, apoiados por fortes e hegemónicos interesses económicos e comunicacionais, e cujas chefias e responsáveis têm há mais de uma década ampla presença nas televisões? Que comparação se pretende fazer? Que conclusões se espera tirar? Que paralelos de viabilidade se espera encontrar?

 

Por fim, a que título num congresso de tempo necessariamente limitado se convidam directores para um dos painéis? E a que título se convidam, para outro painel, os donos do negócio? E as agências de comunicação estarão noutro painel a fazer o quê?

 

Já não basta a todos conhecer o que os directores pensam da profissão, do jornalismo e dos seus critérios, através das decisões editoriais que diariamente evidenciam? Já não basta serem confundíveis com as administrações que têm feito do jornalismo e do seu produto o lugar que é? Já não basta ter de se ouvir, nas televisões, as opiniões desse clubístico círculo fechado?

 

Espantosa também a decisão de convidar as agências de comunicação para outro painel. O trabalho dos jornalistas é descondicionar os leitores. Levá-los a pensar e a criar convicções próprias. O trabalho das agências de comunicação é exactamente condicioná-los. Mas talvez o convite seja compreensível. Os jornalistas precisam de discutir assuntos como as suas próprias condições de trabalho, o tempo que têm para pensar e escrever as suas peças, discutir opções editoriais. Com as agências de comunicação tudo fica mais facilitado. Basta copiar e colar.

 

E que sentido faz convidar os donos dos jornais para fechar o Congresso e responder à quase leninística questão “E agora?” O presente dos jornais, a falta de leitores e de credibilidade não se deve a eles? Às suas más decisões e escolhas materiais e pessoais? Ao modo como há décadas aumentam a precariedade, desfazem redacções e dificultam as condições do trabalho?

 

A que título de abrangência e de pluralismo se convidaram agências de comunicação, directores e donos de jornais? Coragem e saber era deixá-los à porta do São Jorge, onde os trabalhos decorrem. Para as suas opiniões os palcos não faltam. Coragem e saber era dar esse espaço e esse tempo a quem quisesse discutir as questões dos jornalistas, as condições de trabalho dos jornalistas e de produção das notícias. Afinal, o encontro, que não se realizava há quase duas dezenas de anos, como a organização vincou em todas as comunicações que me fez chegar, chama-se Congresso dos Jornalistas e não Congresso do Jornalismo.

 

 


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