06
Jul 17
publicado por Tempos Modernos, às 12:08link do post | comentar

Havia aí um jornal que ia ouvir Barreto de cada vez que o Governo de Passos Coelho e Paulo Portas levava com um chumbo do Constitucional. Já se sabia que com o homem estava sempre garantido um par de frases de ataques à Lei Fundamental, uma coisa do PREC a pedir alteração de cabo a raso.

 

Agora, depois disto, logo depois disto, lá estava o sociólogo de serviço a uma entrevista de Vítor Gonçalves na RTP. Que era para ajudar a pensar o país na sequência dos fogos de Pedrógão Grande, justificava-se o membro da direcção do canal. E olha que dois para o fazerem.

 

As ideias estúpidas propagam-se com grande velocidade nos meios de comunicação social portugueses, que reproduzem como boas as superficialidades uns dos outros. Em regra para o mesmo lado, que falta-lhes em originalidade o que lhes sobra na constância das apostas pessoais. E Gonçalves faz parte do conjunto de jornalistas que não nos sossega propriamente quanto à qualidade da informação e do contraditório.

 

Entretanto, Judite Sousa, que nos andou a servir reportagens e directos com mortos nas imagens de fundo, serviu-nos também um debate que meteu os roubos de Tancos comentados pelos directores Paulo Ferreira e António Costa. Mas o canal podia ter convidado logo Assunção Costas e Passos Coelho, se era para a coisa ficar um bocado mais plural e diversa de pontos de vista. Ou aquele outro moço que garantia a pés juntos a existência de armas de destruição massiva no Iraque e que entretanto para fundar uma publicação sacou uns trocos a uns amigos de Durão Barroso.

 

Que se há-de fazer? Anda aí muita gente com carteira profissional de jornalista, mas sem perceber que jornais não são blogues.

 

 


27
Jan 17
publicado por Tempos Modernos, às 12:32link do post | comentar

Há um par de semanas, no jornal de um dos partidos de esquerda que viabiliza o governo de António Costa, punham-se em destaque duas frases de uma entrevista dada ao jornal i pela jornalista Maria Flor Pedroso, presidente da comissão organizadora do IV Congresso dos Jornalistas.

 

"Alguns jornalistas têm medo de participar neste congresso"

e

 

"Muitos de nós não nos revemos em grande parte daquilo que vemos, ouvimos e lemos".

 

A escolha do jornal contribui para uma determinada narrativa acerca da crise do jornalismo português. Mas, mesmo que residualmente acertada, é uma narrativa daninha para a inteligência da questão.

 

É um erro persistir na ideia do medo dos profissionais. Tal como é um erro acreditar que nas publicações se exibem, dizem e escrevem coisas diferentes daquelas em que jornalistas se revêem. O que não é verdade. Nem na forma, nem na substância.

 

Ora, o que a narrativa desse jornal partidário insinua como solução é uma operação de simples simetria: acabar com um eventual medo (o que é sempre bom) e exibir, dizer e escrever coisas em que outros se revejam. Na melhor das hipóteses, ter-se-ia direito a um discurso mais plural. Mas informar não é dar algo em que os espectadores se reconheçam, nem continuar a sobrecarregar, de modo tóxico, o espaço público de discussão com conteúdos alternativos a metro.

 

O problema do jornalismo é de ordem cultural. Um problema não apenas do direito à produção do discurso, mas também do reconhecimento do discurso - da não-exclusão do  discurso, para falar em termos foucaultianos.

 

Nada disso se resolve sem mudar de alto a baixo a cultura das redacções, cortando cerces os paradigmas e os mecanismos de reprodução existentes.

 

 


07
Nov 16
publicado por Tempos Modernos, às 16:49link do post | comentar

Há jornalistas que recebem em mão, papinha feita, o documento com a privatização da TAP que vai no dia seguinte ao último Conselho de Ministros de um Governo à beira de ser substituído por outro que já avisou que irá reverter qualquer privatização da transportadora aérea. Remetem a coisa para um rodapé mal-amanhado da primeira página, de tal modo que a bomba será aproveitada por outros ao longo do dia. É o que se chama estragar lagosta da melhor.

 

Há jornalistas que ouvem alguém do Governo dizer haver obrigação de toda a gente declarar rendimentos e património, na sequência da polémica com a administração da Caxa Geral de Depósitos. Sem outra citação, concluem que essas palavras querem dizer que o ministro das Finanças, que tem a tutela da CGD, sairá do Governo em Janeiro. É o que se chama fazer croquetes de raspas de carne para os cães.


05
Nov 16
publicado por Tempos Modernos, às 19:58link do post | comentar

O jornal Sol noticia a saída do ministro das Finanças em Janeiro. E outras publicações vão atrás. António Costa reagiu dizendo ser “um disparate completo que o ministro esteja para sair”. Mas o facto está criado e o Público conclui que “Costa segura Centeno”, como se tivessem garantias cruzadas de que a hipótese de demissão de Centeno é um facto insofismável – é o que sugere o verbo escolhido pelo diário. Num Governo só se segura aquele que está para cair.

 

Infelizmente, este tipo de notícia, as que dão conta da dissolução iminente do Executivo do PS, têm sido uma tendência nas publicações do grupo editorial deste que o Governo tomou posse. Têm tido demasiadas manchetes e títulos a confundir desejos próprios com a realidade.

 

Desta vez, pelo que está disponível online, pouco se conclui quanto à consistência da informação veiculada. As fontes estão por identificar. E as declarações citadas que o jornal considera não poderem ser mais explícitas nada têm que ver com a saída de Centeno – que é o título da notícia e manchete do semanário. Falam sim da entrega das declarações de rendimentos e património da administração da Caixa Geral de Depósitos.

 

Às tantas, parte volumosa da informação política portuguesa assenta em factos criados e alimentados pelos jornais como se correspondessem à realidade. Um deixa cair e o outro apanha. Ainda se trata de jornalismo? Fica informado quem só leia as gordas e não esteja preparado para a hermenêutica do que é publicado pelos jornais?

 


publicado por Tempos Modernos, às 14:09link do post | comentar

"«O que tem acontecido na comunicação social é o acompanhamento de buscas e detenções em directo. Essa informação, naturalmente, tem que partir da investigação criminal», atira a bastonária dos advogados.

«Basta ver uma determinada publicação, que eu não vou aqui referenciar, para todos os dias estar aí transcrito o que a investigação criminal está a fazer», sublinha."


02
Nov 16
publicado por Tempos Modernos, às 16:02link do post | comentar | ver comentários (2)

Pode dar tudo para o torto, mas apesar da interferência do FBI na campanha e de algumas sondagens, Hillary Clinton tem grande probabilidade de ser eleita presidente dos Estados Unidos da América.

 

A eleição dos presidentes norte-americanos é indirecta. E, para ser eleito, o candidato tem de garantir 270 votos do colégio eleitoral. Há estados pequenos, que elegem apenas três eleitores (por exemplo, o Alasca, o Wyoming, Washington DC) e estados populosos a eleger 55 eleitores (como a Califórnia), 38 (como o Texas) ou 29 (como a Florida).

 

Também há estados garantidamente democratas (o Massachussets é um, com 11 eleitores), onde os republicanos não fazem campanha por não valer a pena, e, vice-versa, estados assumidamente republicanos (veja-se o Tennessee, também com 11 eleitores) onde as caravanas democratas nem páram. Aí as urnas estão virtualmente fechadas e os dois maiores partidos norte-americanos contam há muito com esses eleitores como seus.

 

Depois há, como já se sabe, os estados dançarinos, onde a luta é renhida, e tanto podem cair para um lado como para o outro. E é aqui que tudo se joga. Em estados ambíguos, como a Florida (29 eleitores), Nevada (6), Iowa (6), Ohio (18) não se sabe se a vitória pende para Hillary Clinton ou para Trump.

 

Tudo contabilizado, no presente momento, Hillary Clinton terá 263 dos 270 eleitores de que necessita no colégio eleitoral para assegurar a eleição. Donald Trump terá 164.

 

Será expectável que todos os estados dançarinos acabem por votar em Trump, dando-lhe os mais de 100 votos de que necessita? Ou será mais provável que um ou dois desses estados, mesmo que pouco significativos em termos populacionais, acabem por dar a vitória a Hillary Clinton, assim como os sete votos de que necessita para ser eleita presidente dos EUA este domingo?

 

 

 


14
Out 16
publicado por Tempos Modernos, às 18:22link do post | comentar

Farto de os ouvir sem contraditório passei a dar ao desporto uma atenção que já não dava há um par de décadas. E o cenário está longe de ser brilhante. Veja-se a cobertura das sucessivas e incuráveis lesões do plantel do Benfica.

 

Não faltam os programas de debate. Há neles até – a moderar e a comentar – gente por quem tenho estima pessoal e consideração profissional. E, contudo, não se aproveita nada do que dali sai. Guerrinhas estúpidas entre clubes, insultos, ofensas, discussões de lances duvidosos. Horas a fio nisto. Mesmo o que se aproveitava, com profissionais a falar de desporto, parece ter acabado de vez.

 

No último mundial de futebol, antes de Portugal entrar em cena, assistiu-se a inúmeras discussões entre jornalistas por causa das diferenças dos treinos da selecção portuguesa e da alemã. Ambas as equipas estavam no mesmo grupo e iam jogar em Manaus, lugar desgastante e de humidades altíssimas.

 

Longos dias os jornalistas questionaram as vantagens dos alemães estarem a treinar num ambiente semelhante aquele em que iam jogar. A selecção portuguesa treinava noutro sítio qualquer – de condições muito distantes daquelas que iria enfrentar quando começassem os jogos da fase de grupos.

 

Apesar das dúvidas levantadas por jornalistas em estúdio, nunca a nenhum (que desse por isso) ocorreu informar-se com especialistas de medicina desportiva, de treino de alta competição. Em vez de darem a ouvir opiniões abalizadas, limitavam-se a repetir que se calhar a Alemanha fazia bem e Portuga fazia mal.

 

Depois do primeiro jogo (Alemanha, 4-Portugal, 0), lá apareceu um jornalista (salvo erro, Rui Santos) com uma tese ou estudo acerca do treino de adaptação de desportistas de alta competição a condições extremas. O que devia ter sido dado antes, só foi dado depois da porta arrombada. Não existiu o debate que se calhar poderia ter sido feito em antecipação, e com possibilidades de correcção. Os jornalistas não têm de ser especialistas em tudo aquilo de que falam, mas se não sabem, têm a obrigação de ir perguntar a quem sabe para cumprir a sua função informativa.

 

É exactamente o que agora se passa com as lesões do plantel benfiquista. Não basta aos jornalistas, que ocupam dezenas de horas de antena televisiva, referirem a existência de um batalhão de lesionados no plantel benfiquista. Não lhes basta dizerem que é estranho, fazer notícias a dizer que a SAD encarnada já mandou perguntar o que se passa. Não basta aos repórteres dizerem que o Sporting aproveita as redes sociais para mandar bocas ao rival por causa das lesões.

 

Os jornalistas não podem aceitar como boa a explicação de que se trata de azares acumulados ou ficar satisfeitos com informação lacunar – que deviam ter sido eles a tentar obter - deixada escapar por ex-futebolistas em programas de debate.

 

Os jornalistas têm, mais uma vez, de falar com especialistas em medicina desportiva, em treino de alta competição, de lhes perguntar o que se pode passar no departamento clínico, nos treinos da equipa da Luz. Só com essa informação podem questionar a equipa, o treinador, o preparador físico, os médicos. Só com informações de especialistas podem fazer as perguntas certas. E obter as respostas que interessam, as respostas que informam. É só isso que se pede aos jornalistas. O resto, a conversa, tantas vezes entre adeptos alarves, não adianta nada ao seu papel constitucional de informar.


publicado por Tempos Modernos, às 18:20link do post | comentar

Os jornais acabaram há muito com o pluralismo e com a variedade de vozes. Uma parte muito significativa – ou pelo menos a parte mais audível – dos meus camaradas jornalistas de política e de economia no activo pouco se distingue de correntes transmissoras de uma ideia única.

 

O grosso do comentário que fazem é de uma pobreza confrangedora, repetido uns dos outros, alicerçado em lugares comuns, em preconceitos e em agendas com que convivem acriticamente. O único que vi a prever o Governo que hoje temos foi, aliás, despedido pouco depois - o que deve querer dizer qualquer coisa.

 

Quanto aos directores são quase sempre os mesmos, em quase todos os lugares. Há mais de dez anos, um grupo quase fechado a dançar entre as mesmas cadeiras. E, apesar de focos de qualidade aqui e além, o geral do produto jornalístico é abaixo de cão. E as vendas também não são famosas. Com os que estão, meço as palavras, não se cumpre (nem cumprirá) a obrigação constitucional de informar.


14
Ago 13
publicado por Tempos Modernos, às 11:58link do post | comentar

 No novíssimo canal de informação, a bruxa, agora transformada em apresentadora, trata por colegas jornalistas da revista do grupo.

 

Num dos casos até avisa que uma dessas “colegas” terá de passar lá pelo programa para falar sobre um artigo que escreveu.

 

Bem se sabe que análises de jornalistas, economistas e cartomantes não se distinguem muitas vezes umas das outras, mas a legitimidade do mercado e da procura não justifica amalgamentos entre informação e espectáculo.

 

Que no grupo que quer(ia) ficar com o serviço público de informação se confunda jornalismo com apresentação diz muito sobre o destino que nos reserva(va)m.


12
Mai 13
publicado por Tempos Modernos, às 09:46link do post | comentar

 

(Foto: dinheirovivo.pt)

 

Marques Mendes vai matando saudades do seu já longínquo passado enquanto alegado produtor diário de alinhamentos de telejornal. Transferido recentemente da TVI24 para a SIC, o conselheiro de Estado, antigo ministro de Cavaco e antigo presidente do PSD, dá notícias, cria factos. Alimenta uma agenda, o estatuto de recrutável no mercado comentocrático da comunicação social.

 

Depois de ter anunciado a convocação para breve do Conselho de Estado - Manuel Alegre, seu parceiro no órgão de aconselhamento do Presidente da República, afirmou desconhecer qualquer convocatória, mas o também conselheiro Marcelo Rebelo de Sousa, talvez para não ficar atrás de Mendes, confirmou a intenção de Cavaco, que, entretanto, afirmou que o marcaria quando fosse útil -,  Marques Mendes descobriu em Vítor Gaspar um perfil de comissário europeu.

 

E porque não? Há muito que o país se habituou a ver figuras sem grande préstimo alçadas aos mais cobiçados lugares. Gaspar seria mais um no  rol infindável de personalidades menores, de desconhecidas virtudes cívicas e méritos discutíveis, premiadas com colocações de sonho.

 

Até poderia lá ser posto pelos seus. Mas, num sítio asseado, o PS, em aparente corte com o passado e por conta do qual corre a sucessão governativa, alertaria para a remoção logo que possível.

 

Infelizmente, o exemplo recente  da Islândia, onde os responsáveis voltaram ao local do crime, baixa ao menos as expectativas quanto ao futuro.


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