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Deitar fora leitores e audiência

por Tempos Modernos, em 24.03.13

"Sinergia" é um palavrão da novilíngua, idioma que um historiador recentemente me garantia ser uma das mais perspicazes caracterizações do regime totalitário soviético esquecendo-se que convive com ela diariamente no sistema em que vivemos.

 

"Colaboradores", "reestruturações", "ajustamentos", "ajuda externa" também fazem parte do cardápio, mas não falta nas redacções quem se atire a elas como gato a bofes e as utilize como se fossem tão despidas de intenção como o seu sentido semântico aparenta.

 

Estranho, quando a maior parte dos jornalistas não fez engenharia, como eu, mas sim ciências da comunicação e jornalismo, em faculdades onde as semióticas, deleuzes, merleaus-pontis, essas coisadas todas se declinam na ponta da língua. Deve ser do convívio com o pessoal das publicidades e das relações públicas.

 

As tutelas de serviço à gestão das televisão e rádio públicas, de que Relvas, numa genealogia do poder nas estações do serviço público, constitui apenas mais um elo manipulativamente empenhado, prosseguem empenhadas em pôr alguns a fazer quase tudo. Vale a pena ler, ontem, Oscar Mascarenhas e J.-M. Nobre Correia que falaram sobre este mesmo assunto.

 

Gestores e tutelas políticas têm assassinado a informação. Mas a coisa fia mais fina e chega a todo o lado. Pode dizer-se que outros, sendo meios privados, farão o que quiserem, mas o jornalismo não é um enlatado qualquer e há responsabilidades para com quem dá o dinheiro a ganhar às empresas.

 

Nos jornais, rádios e relevisões trabalha gente que tem direito a ser gerida por quem contribua para a manutenção das vendas ou o seu crescimento sustentado. Infelizmente, o que sobra são mercenários que em nada contribuem para a produção daquilo que os leitores procuram, gestores que todos os dias aprofundam as maneiras de pôr o trabalho dos outros em risco.

 

Quando o grupo que detém o Dinheiro Vivo replica informação desse meio nas páginas do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias, pode estar a poupar em pessoal, mas também sabota os seus próprios produtos e presta um mau serviços à informação. 

 

Nenhum leitor gosta de perder tempo na net à procura de outras notícias sobre um determinado assunto que lhe interessa, para encontrar o mesmo e exacto artigo copiado para várias plataformas dos órgãos de comunicação do grupo. Cedo deixará de as visitar. No digital procura-se variedade e não o copia e cola.

 

Já o Público despediu muita gente experiente no final do ano passado. O jornal tem de dar lucro até 2015 e afirmou uma aposta no digital. Pelo caminho reproduz na versão papel muitas notícias que li antes na versão online. Acham mesmo que as restantes notícias do papel serão suficientes para a malta continuar a comprar-lhes o jornal em banca? Eu cá não me fiava.

 

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publicado às 19:12

As sondagens enganadoras

por Tempos Modernos, em 20.03.13

Neste post, cito uma sondagem da Universidade Católica em cujos resultados não acredito grandemente. Quem anda na rua, vai aos cafés, usa os transportes públicos não acredita que logo a seguir a uma manifestação como a do 2 de Março o PSD tenha subido quatro pontos nas intenções de voto.

 

Já acredito que o PS e os restantes partidos da oposição não descolem de modo claro. A credibilidade governativa depende bastante de factores extrínsecos à validade ou existência de propostas alternativas. E essa credibilidade é no essencial bastamente construída por tiro de barreira comunicacional.

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publicado às 17:32

Um partido por encontrar

por Tempos Modernos, em 20.03.13

 

(Foto: rr.sapo.pt)

 

Tirando o odiado Manuel Maria Carrilho e poucos mais, pelas bandas do PS são poucos os que perceberam o que se tem passado na Europa e no mundo nos  últimos anos. 

 

Com aquele tom e firmeza que o tornam notado, António José Seguro tem apesar de tudo dito uma ou outra coisa que poderia fazer sentido e no entanto não parece descolar nas intenções de voto. A circunstância de serem já bem conhecidas as diferenças entre o PS de Governo e o PS de Oposição até poderiam explicar a coisa, mas os motivos são outros. Entre os eleitores ninguém imagina Seguro como primeiro-ministro. Nem mesmo que já se tenha avistado Pedro Silva Pereira na comitiva do secretário-geral. Nem mesmo que à porta-fechada se fale em moções de censura.

 

Na oposição interna, António Costa, Augusto Santos Silva e Francisco Assis tentam levantar a cabeça, mas por essas bandas - a direita do PS - a percepção dos dias que correm ainda é mais difusa. Contarão espingardas, fazem contabilidade e gerem lugares a distribuir. Manuel Alegre, cuja capacidade de análise é mais fraca que o instinto, disse há dias que Assis, por exemplo, "não percebeu nada de nada".

 

Daniel Bessa, que é independente, foi ministro de Guterres e tem a seu favor ter fechado os hipers aos domingos, sugeriu que o país vai tão mal que o PS deveria integrar o Governo alargando a maioria que o sustenta. Desejos de quem viu parte da luz e ainda acredita que é possível salvar a sua parte no navio que se afunda. Pessoalmente, talvez se safe, mas o rombo não permite sequer que o barco consiga boiar.

 

Quatro parágrafos para chegar a Pedro Nuno Santos, um dos ex-dirigentes da JS (que de quando em vez vai dizendo coisas com sentido. Hoje no jornal i percebeu finalmente que "[e]stamos em guerra"Que "Portugal deve fazer pressão pública, promover ativamente alianças com outros países, aproveitar a energia dos protestos dos portugueses como instrumento de pressão negocial e, em última análise, rejeitar mesmo a aceitação de condições de ajustamento suicidas".


Contraditório é que numa altura em que sectores do PS parecem ter começado a perceber o que está em causa na Europa, no euro e no país que nos últimos quase 30 anos ajudaram a construir, se lembrem de recorrer a Jorge Coelho para apoiar em Viseu uma candidatura autárquica. O antigo ministro de Guterres é uma figura pessoalmente simpática, mas não tem condições para, em concomitância, continuar a ocupar espaço empresarial e espaço político.


 

 

 

 

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publicado às 16:51

O negócio a voar-lhe

por Tempos Modernos, em 20.03.13

(Foto: spox.com)

 

É natural que Wolfgang Schaüble, ministro das Finanças da Alemanha, lamente a decisão do parlamento cipriota. Cúpido, contava já com a transferência das contas russas para a banca alemã.

 

Duvida-se que o preocupasse por aí além a origem das massas. No caso de Chipre isso só trouxe preocupações agora que a coisa deu para o torto. Nunca antes.

 

Também pouco importa que os clientes da banca cipriota se vejam forçados a alavancar os falhanços das instituições financeiras locais, como um vulgar accionista habituado a ver os lucros bem remunerados. No fundo, é algo assim como obrigar o caríssimo leitor a entregar parte das suas poupanças para acudir ao dono do talho onde habitualmente se abastece e que está na iminência de falir.

 

O pessoal das energéticas, que não brinca em serviço, até já se ofereceu para assumir a reestruturação do sistema bancário cipriota. Se companhias fruteiras norte-americanas governaram países inteiros na América Latina, se o sistema bancário subjuga actualmente vários países europeus - Portugal incluído - haverá problema de maior caso a Gazprom venha a governar Chipre?

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publicado às 15:59

 

(Foto: abola.pt)

 

É oficial. Passei a achar que não ganho o suficiente para fazer compras nos supermercados de Belmiro de Azevedo.

 

Desde o 1º de Maio do ano passado (ou da sua ida para os Países Baixos, para fazer pela vida, o que tiver sido primeiro) que não entro num estabelecimento de Alexandre Soares dos Santos. Com Belmiro tem a subida honra de oscilar entre os primeiros postos das pessoas mais ricas de Portugal, gente a quem a crise tem sorrido e dado oportunidades.

 

Se fechassem as lojas não se perderia grande coisa.  Não produzem bens transacionáveis e ninguém acredita que não abrissem no seu lugar outros estabelecimentos onde os portugueses pudessem fazer compras e que lhes contratassem os actuais e  - se calhar inferindo abusivamente - mal pagos empregados. 

 

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publicado às 08:23

Recuo no estábulo

por Tempos Modernos, em 19.03.13

O parlamento cipriota recusou em bloco a medida de sequestro bancário e das poupanças decidida na sexta-feira no âmbito do Eurogrupo.

 

Ainda não é certo que exista inteligência entre os governantes da zona euro, mas pelo menos evidenciaram um módico de instinto de sobrevivência. À última hora acobardaram-se com a jerica ideia

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publicado às 20:46

 

(Foto: jornada.unam.mx)

 

Segundo parece, na sequência da última reunião do Eurogrupo, o ministro cipriota das Finanças acabou por ficar sozinho com os homónimos holandês e alemão discutindo a situação na ilha enquanto òs restantes congéneres andavam pelos corredores**.

 

Terá sido do seio desse triunvirato que saiu a decisão de sequestrar os depósitos bancários cipriotas impondo-lhes uma taxa de 6,7% aos depósitos abaixo dos 100 mil euros e de 9,9% para os depósitos acima desse valor. Depois, a coisa terá sido votada unanimemente pelos ministros das Finanças. O outrora luminoso Gaspar incluído.  

 

Cavaco concluiu bem que "o bom-senso terá emigrado para outras paragens". Bagão Félix viu na ideia a "medida ideal" para acabar com o euro. Se a coisa for por diante, mais ninguém confiará na zona Euro, nem no seu sistema bancário. Um norte-americano, o Nobel Paul Krugman, considerou que a solução apresentada constitui um convite dos governos europeus para que todos os cidadãos corram aos bancos para levantar os seus depósitos.

 

Entretanto, demasiadas horas depois, os omnipotentes alemãs pareceram perceber a cretinice da medida. E, corajosos, lá garantiram nada ter tido a ver com o assunto. Hoje, o ministro alemão das Finanças negou ter sido a Alemanha a impor a taxa sobre os depósitos ao Governo cipriota. A justificação de Wofgang Schauble não evidencia um raciocínio particularmente brilhante: se tivesse surgido outra solução não teria havido problema em apoiá-la, disse. Demasiado curto e poucochinho que alguém com a responsabilidade impositiva de Schauble tenha sido incapaz de entender onde estavam a meter o euro e a União Europeia.

 

As justificações para a medida foram as do costume. Os sistematicamente superavitários contribuintes alemães não teriam de arcar com os desaires dos depositantes russos na banca cipriota. Sempre a questão moral brandida pelos nórdicos, em concreto por estes que pelo caminho que a coisa leva serão os responsáveis pela terceira destruição europeia no espaço de um século.

 

E finalmente chega o que parece ser um recuo. O Eurogrupo terá começado a pensar e talvez já não venha a impor a taxação dos depósitos abaixo dos 100 mil euros, para muita gente as poupanças de uma vida de trabalho.

 

A saída do euro tem de começar a ser pensada. Se o norte não quiser continuar na União Europeia, talvez o sul possa continuá-la com gente com  hábitos e práticas culturais de outra índole. 

 

* Em circunstâncias normais, o título do post seria calunioso. Já não é. Não seria possível que gente impreparada ou até completamente analfabeta em matérias económico-financeiras tomasse medidas mais desajustadas ou mais criminosas do que aquelas que sistematicamente são tomadas pelo conjunto dos ministros das Finanças europeus, vários deles apresentados como académicos e técnicos reputados. 

 

** À versão contada por um director de publicação económica (sem link) junta-se, esta do Expresso, onde se compara o que fizeram e disseram depois vários responsáveis políticos, da Comissão Europeia, do BCE e do FMI incluídos

 

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publicado às 22:16

Gaba-te cesta

por Tempos Modernos, em 17.03.13

 

(Foto: presidencia.pt)

 

 

Quando, dentro de três anos, deixar o palácio de Belém, a bordo de um helicóptero, para escapar às vaias do povo, Cavaco deixará saudades a Maria João Avillez, Marcelo Rebelo de Sousa, uma mão por completar de hermeneutas presidenciais, pouco mais.

 

Depois de trinta e tal dias de silêncio, Cavaco lançou o sétimo volume dos Roteiros, os seus discursos presidenciais, onde o mais relevante - e a crer nos analistas, nem isso - terá sido o auto-justificativo prefácio. Ora, a auto-justificação é para quem não tem poder, para quem não tem tribuna. Cavaco tem isso tudo. A acção presidencial, a havê-la, é auto-explicativa. 

 

A teoremática formulação de que o protagonismo presidencial é inversamente proporcional à sua influência carece de demonstração. Lembro-me sempre de um antigo professor de Análise Matemática dizer numa aula prática que era fácil inventar teoremas. Difícil era que servissem para grande coisa. Positivista, o académico social Cavaco vai mais longe. Estabelece leis sociais, mas não se dá sequer ao trabalho de as demonstrar, como exigem os teoremas.

 

E o secretismo está longe de assentar bem às democracias. A publicidade dos actos dos detentores de cargos públicos é aliás uma das principais virtudes destas. E depois, Cavaco nem sempre tem sido tão discreto como agora diz ser. Com Sócrates não faltaram alfinetadas públicas e ruidosas. A vingança serviu-a no prefácio dos discursos do ano passado. Duvida-se que não a venha a pagar. O ex-primeiro-ministro nunca teve feitio fácil.

 

Em Roteiros, Cavaco afirma-se como o homem providencial, o homem certo, no lugar certo - o que infelizmente poucos parecem notar. E quanto à Europa, embora inconsequente, até diz coisas acertadas. O pior é o resto. Entre o muito que desta feita Cavaco afirma não poder dizer no prefácio lá confessa a participação activa e responsabilidade na obtenção do acordo de concertação social (não se percebem os motivos da gabarolice) e sugere ter impedido a ruptura entre os partidos da coligação governamental (tretas, Paulo Portas nunca planeou sair do Governo: as críticas a Passos Coelho visam, isso sim, garantir um lugar num próximo Executivo). 

 

Cavaco, como de costume, tenta tirar o corpo fora. Fora de Cavaco, nada interessa a Cavaco. Fátima Bonifácio, que votou nele, dizia ao Público, na semana que passou, que a principal preocupação de Cavaco é "ficar sempre bem na fotografia". Não o vai conseguir. E o falhança será mais que merecido.

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publicado às 16:52

 

 

(Foto: annefrankguide.com)

 

 

Estrela Serrano relembra hoje como jornalistas e comentadores embandeiraram em arco com a tróica por aqueles dias em que ela aterrou na Portela.

 

O trabalho de republicar o que então foi dito por muitos seria aquilo a que com propriedade se poderia chamar serviço público. Até por que com os resultados agora anunciados pelo então muito amado Gaspar permitiria expor o que esses jornalistas e comentadores valem enquanto analistas.

 

Mostraria ainda como o papaguear asneiras e defender comportamentos sociopatas e radicalismo se torna muito mais benéfico para uma carreira no jornalismo português do que chamar a atenção para a situação a que chegámos.

 

Os novos números de Gaspar e da tróica correm o risco de tornar Portugal em novo Chipre de contas encerradas. E Chipre das contas encerradas é um prenúncio do fim do Euro. Quem manda, das instâncias comunitárias aos governos nacionais, está em absoluto e irresponsável estado de negação enquanto tudo faz para apressar a entrada de Portugal em bancarrota e o fim da União Europeia. 

 

Nos jornais que sobreviverem vai-se reacertando a agulha comentarista como se os que falharam em toda a linha por motivações alheias ao jornalismo pudessem continuar credíveis nas direcções e editorias que já então ocupavam. 

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publicado às 15:48

As duas referências

por Tempos Modernos, em 13.03.13

 

 

(Foto: pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_Xavier)

 

 

 

(Foto: commons.wikimedia.org/wiki/File:El_Greco_Ecstasy_of_St_Francis.jpg)

 

 

 

A primeira, em versão arte Nambam, a vocação missionária e universalista, dir-se-á natural num Papa jesuíta e vindo do Novo Mundo. A segunda, mais popular, espiritual e urbana, segundo a visão crística de El Greco. A ver como cumprirá aqueles destinos.

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publicado às 21:21



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