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Dez 15
publicado por Tempos Modernos, às 20:23link do post | comentar

Portugal precisa de dinheiro. Portugal precisa não só de cumprir as estúpidas metas do défice a que se comprometeu com Bruxelas, como também, de manter um estado social e índices de desenvolvimento humano compatíveis com os do grupo dos países ocidentais desenvolvidos a que pertence. Portugal precisa de dinheiro. E, com as regras a que está forçado a obedecer, só o terá se subir os salários. De contrário, a riqueza criada em Portugal será escoada, sob a forma de dividendos, para contas externas na Holanda, Zona Franca da Madeira e paraísos fiscais.

 

Ainda agora, na Gulbenkian, Joseph Stiglitz, nobel da Economia, vincou a necessidade de combater desigualdades e de aumentar impostos. Mas é difícil. A tentação do boicote ao novo Executivo é não só grande como sistematicamente anunciada. E são as próprias empresas que se mostram intransigentes e pouco colaboradoras que se põem na posição de serem forçadas a subir os salários dos seus funcionários.

 

No dia em que António Costa foi indicado para formar Governo, António Saraiva, patrão dos patrões, disse à Renascença que os dias de indefinição política no país tinham levado alguns empresários a “retirar dinheiro do país pelos sinais negativos que foram dados em termos de fiscalidade”.

 

Boa parte desta gente, dos que são realmente representados pela CIP, que Saraiva dirige, e por outras confederações patronais, não paga há muito tempo impostos em Portugal. Isso fica para os empresários miúdos, que nem por isso têm especial consciência da sua posição. Os primeiros ganham muito dinheiro, mas escapam-se com ele para lugares onde a fiscalidade lhes é vantajosa.

 

Pagam, pois, os impostos em Portugal, não os que têm maior capacidade para o fazer, mas os que ganham menos, os com lucros mais baixos, os que não têm capacidade para encontrar soluções que lhes desonerem a carga fiscal. Pior, se as maiores empresas pagassem impostos em Portugal, as pequenas, médias e micro empresas teriam uma carga fiscal mais baixa. O que estas nem sequer vêem.

 

Para concluir: O Estado português precisa de dinheiro, mas as empresas portuguesas que podiam pagar impostos que se vissem e redistribuir o dinheiro dos dividendos que alcançam não pagam impostos em Portugal. Uma solução para ir buscar o dinheiro que ganham, em Portugal, com trabalhadores portugueses, e com o mercado português, é forçá-las a aumentar os salários dos seus trabalhadores. De contrário, todo o dinheiro que estas empresas fazem será taxado apenas residualmente, nunca sendo redistribuido, mas regressando às grandes empresas e aos cofres dos seus donos.

 

Assim, as empresas forçadas a redistribuir o dinheiro que ganham através de um aumento significativo da massa salarial terão menos dinheiro para depositar no estrangeiro. Aumentados, os trabalhadores poderão ter maior qualidade de vida. E o Estado pode recuperar, a partir do IRS dos novos aumentados, parte do valor que engrossaria os dividendos das empresas e dos seus patrões.

 

E será de recear a fuga dos investimentos das grandes empresas? De algumas, sim, de muitas delas obviamente que não. Alguém acha que se Alexandre Soares dos Santos ou os Azevedos deslocalizassem as suas empresas, ninguém as substituiria ou que os portugueses deixariam de ter onde fazer compras?


publicado por Tempos Modernos, às 16:00link do post | comentar

Na vila de província, vende frangos assados, refeições para fora e tem doze empregados. Queixa-se do governo à esquerda e da prometida subida do salário mínimo para 600 euros, até ao final da legislatura.

 

Terá de despedir dois empregados, garante. Ou seja, em quatro anos, com uma casa que precisa de doze empregados, não sabe como ir tirando aos lucros cerca* de 1200 euros por mês. Não fez contas.

 

Garantidos estão apenas os despedimentos dos dois empregados caso o salário mínimo suba. Quer vingar-se dos partidos da esquerda.

 

Também há a mexida no IVA. Mas nem lhe passa pela cabeça baixar os preços ao consumidor quando este imposto descer dos 23 para os 13 por cento. Não fez contas e também não sabe com quanto ficará a mais no fim de cada mês.

 

Nem sequer pensou (por muito que os lucros do estabelecimento sejam à pele, e não são) que a verba que meterá ao bolso através do IVA que não recebe irá equilibrar e compensar a subida do salário mínimo.

 

Há coisas que fazem parte dos direitos naturais das gentes.

 

 

*Sim, os 1200 euros não são o valor exacto, trata-se de uma estimativa grosseira. Passa-se dos 500 para os 600 euros, e multiplicam-se os 100 euros a mais pelo número de empregados.

 

 


publicado por Tempos Modernos, às 15:41link do post | comentar

Sem estender muito o perímetro, conto aqui, em redor de casa, seis cafés familiares. Desses geridos por um casal, vivendo de cafés rápidos ao balcão, um ou outro bolo ou salgado, uma dúzia de refeições ligeiras diárias. Quatro contam com um terceiro familiar como empregado, filhos, todos eles. O quinto mantém uma funcionária, apenas à hora das refeições, sem qualquer parentesco com os donos.

 

Rodo-os a todos nos meus cafés diários, distribuindo mais ou menos equitativamente os 60 cêntimos do consumo. Quando lá entro fora das horas de ponta, sou, muitas vezes, o único cliente. No café com empregada, tirando os donos, não me recordo de ter visto alguém a almoçar.

 

Nenhum deles fará grande dinheiro ao fim do mês. Vão andando, uma vida atrás do balcão, abrindo das 8h às 20h, alguns até durante mais horas. São o tipo de negócio que o primeiro governo de Passos Coelho e Paulo Portas quis dar à morte. Sem competitividade, sem capacidade de afirmação no mercado, tão diferentes da pastelaria vizinha, empreendedora, sempre cheia, umas duas dezenas de empregados, bolos e pão feitos na casa, em contínuo, uma centena de almoços diários, sucursais noutros pontos da cidade, carrinhas de distribuição própria – um negócio certificado.

 

A subida do IVA dos 13 para os 23 por cento terá fechado muitos cafés e restaurantes. Estes aqui, em redor de casa, aguentaram-se. Duvido muito que corrijam os preços quando o imposto voltar aos 13 por cento. E, é verdade, nem sempre me dão a factura. Também não a quero para nada e acaba quase sempre por ficar em cima do balcão ou perdida entre a minha muita papelada doméstica.

 

Nestes anos de tróica, Passos e Portas, sem estes muito milhares e milhares de negócios familiares, parados no tempo, não competitivos, longe de modelares, sem qualquer valor acrescentado, de que teriam vivido estas famílias de gente com a quarta classe? Onde teriam ido parar as famílias do casal proprietário e da filha empregada dos seis cafés aqui em redor de casa?

 


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