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Nov 16
publicado por Tempos Modernos, às 15:59link do post | comentar

Sempre que ouço ou leio Duarte Marques sinto-me confrontado com o princípio de que não se deve bater nos mais fracos. Mesmo  sabendo que o homem é deputado e ex-presidente da juventude partidária do seu partido,  o discurso é de tal ordem que um tipo sente-se tentado à clemência .

 

Agora, no twitter, disse lamentar a eleição de Trump. Contudo, deu-a como exemplo da democracia a funcionar, ao contrário do que se terá passado em Portugal com a chegada de António Costa a primeiro-ministro. Pouco interessa a Duarte Marques que António Costa seja primeiro-ministro no mais estrito cumprimento da Constituição da República Portuguesa e do seu artigo 187º.

 

"Ao contrário do [sic] Costa este [Trump] ao menos venceu as eleições", escreveu o deputado do PSD.

 

Pois, só que a constituição dos Estados Unidos permite que seja eleito o segundo candidato mais votado. Hillary Clinton teve mais 230 mil votos que Trump. No total, ficou com 47,7 % dos votos populares, mais 0,2% dos que recebeu o novo presidente norte-americano que arrecadou apenas com 47,5% dos sufrágios. E, no passado recente, é até a segunda vez que tal sucede. Em 2000, George W. Bush também foi eleito presidente dos Estados Unidos da América com menos votos populares que Al Gore, o candidato democrata.

 

Só que ao contrário do que se passa em Portugal onde, para ser indicado, o primeiro-ministro tem, em princípio, de garantir uma maioria dos votos (é o que sucede com António Costa que tem o apoio resultante dos votos do PS, BE e CDU), nos EUA o chefe do poder executivo não precisa de ter a maioria dos votos expressos.


publicado por Tempos Modernos, às 12:43link do post | comentar

Para perceber o mundo que cerca Portugal, neste momento um oásis tolerante, interessa publicar um mapa dos actuais governos europeus, com ligações às extremas-direitas xenófobas, autoritárias e anti-imigração:

 

"Repassemos o mapa europeu. A extrema-direita é hoje a força política mais votada em três países da UE (Hungria, Polónia e Bélgica) e na Suíça, onde, escusado será dizer, está no governo com partidos da direita clássica.

 

É o segundo partido mais votado na Dinamarca e na Croácia. Com mais de 10% dos votos, governa com outros partidos civilizados de direita na Finlândia, Letónia, na Bulgária e, fora da UE, na Noruega.

 

Na Eslováquia, melhor ainda, está dentro de uma coligação dirigida por um social-democrata! Hoje com cerca de 1/6 dos votos, a extrema-direita já esteve no governo com democratas-cristãos e/ou liberais na Áustria (onde pode vir a obter a Presidência da República) e na Holanda.

 

Fora do governo, ela é hoje a força mais votada em França, a terceira na Grã-Bretanha, na Suécia e, segundo as sondagens, na Alemanha.

 

E vamos em 15 dos 28 países da UE! Por todo o lado, partidos da chamada direita clássica incorporaram um discurso nacionalista, xenófobo/anti-imigrantes, racista. A sua escolha está feita. Com a extrema-direita pode-se sempre falar de austeridade desde que ela afete apenas as minorias e se se negue a Bruxelas o acolhimento de um só refugiado que seja."

 

Manuel Loff, "A lengalenga do Populismo", in Público

 

 


publicado por Tempos Modernos, às 12:16link do post | comentar

Todos conhecemos demasiada gente que se dizia enganada por Passos Coelho e pelas propostas que o levaram ao Governo pela primeira vez.

 

E, por algum motivo, cerca de um milhão de eleitores debandou da primeira vez que o então primeiro-ministro (com o CDS-PP) foi a votos para legislativas. Cada um terá um motivo bem pessoal para não ter votado nos partidos da coligação. Mas, ainda assim, haverá demasiada gente a fazer leituras esquemáticas da política.

 

Quando Passos Coelho afirma nunca ter embarcado "na ideia de que Trump é tão mau que tinha de ser derrotado" está a relativizar propostas de índole autoritário, quase fascistas. A caucionar ideias racistas, anti-imigração, sexistas, de agressão às minorias, que nem sequer serão as suas.

 

Infelizmente, este não embarque de Passos Coelho, esta contemporização com ideias perversas e perigosas, tem demasiados cultores  quer no seu partido, quer na comunicação social. E há quem o diga mesmo dentro do próprio PSD do ex-primeiro-ministro.

 

Da próxima vez que forem votar, os mesmo eleitores que há pouco se diziam enganados, terão isto em conta? Duvida-se muito. Há-de estar lá outro alguém a dar a cara, e as pazes serão feitas. Já nem se lembrarão do relativizar de ataques racistas, sexistas e outros. Se é que relamente acham estas questões importantes.


publicado por Tempos Modernos, às 11:47link do post | comentar

Publico, com ajustes, meia dúzia de parágrafos, de um trabalho académico meu já com dois anos (e que até pode ser lido tendo presente a figura de Donald Trump). Num esforço com outro propósito e extensão dois assuntos ganham em ser equacionados em conjunto:

 

«(1) o espírito e atitudes dos júris de alguns modernos concursos televisivos, de que Ídolos é modelo exemplar; e (2) as praxes estudantis. O primeiro caso, vincado pelo modo como os jurados tratam os concorrentes, veicula para os espectadores, e de modo espectacularmente agressivo e exuberante, uma alegada ideia de exigência, ética e entrega profissionais que valeria a pena estudar em termos de percepção, recepção, aceitação, recriação e reprodução no âmbito das relações hierárquicas e laborais, sociais e até de género. Quanto ao segundo desses temas, a praxe estudantil, mais do que fenómeno a pedir caracterização do ponto de vista sócio-económico ou do carácter iniciático interessa por se constituir enquanto dispositivo de violência e poder político, que constrói a sua legitimidade fáctica dentro do espaço escolar simultaneamente aberto e concentracionário e em articulação com outros agentes da corporação escolar e da Cidade.

 

Convém não perder de vista como as instituições de ensino têm os seus espaços de confinamento físicos próprios, as suas regras e normas específicas e até mesmo regimes disciplinares internos. Mas ao contrário de uma loja, fábrica ou banco, e por mais sólida que seja a cultura empresarial de cada uma delas, a Universidade tem outros horizontes. As instituições escolares funcionam, por exemplo, dentro de limites onde a ordem policial civil continua a não poder entrar sem autorização das autoridades corporativas investidas, um privilégio periódica e cronologicamente adquirido e perdido.

 

Há a escola e há o mundo do trabalho. Do mesmo modo que, para pegar em exemplos foucauldianos, existe a prisão e o mundo lá fora; ou o hospital e a realidade dos que são (ou estão ainda) saudáveis. Que existe esse degrau entre a escola e o mundo, esse contemptus mundi, o desprezo do mundo, de que se falava nos mosteiros da Idade Média, é provado não só pelas dificuldades de acesso dos policiais, mas também pelos recorrentes convites a que Universidade e Trabalho se aproximem.

 

Este processo tem algo de equalizador e assenta num discurso político que, nos últimos anos, tem tentado desentranhar o espírito de corpo de várias instituições estatais ou na sua órbita pública, mas que em última instância não deixa de constituir também um assalto à fortaleza. Ao permitir ou ao criar condições para que o exterior, a Sociedade Civil, penetre na corporação desordenam-na nos seus pressupostos intrínsecos e estabilizados, mas também lhe fragilizam a capacidade de intervir política e autonomamente na sua condição estadual. Este processo pode ser observado em dois andamentos. Nos últimos anos desapareceram da Universidade portuguesa os órgãos de gestão com presença paritária de docentes e estudantes – como foram os senados, assembleias de representantes, conselhos directivos e pedagógicos, depois do 25 de Abril – e criaram-se conselhos gerais já entrados pela Sociedade Civil e por personalidades que muitas vezes às universidades dizem nada.

 

Fora das funções de soberania, e talvez por isso situados num espectro menos visível enquanto engrenagem do aparelho estatal, a Universidade é também um foco de poder com procedimentos a que o Estado dá cobertura mesmo quando os não institui burocraticamente. Seguindo Foucault, o Estado surge mais como um de entre muitos efeitos possíveis da concertação de micropoderes e terá resultado no essencial de mudanças nas formas de governo que se engrenaram e acamaram num sentido e não noutro. Assim, em última instância, uma descentralização desta microfísica de poderes – como a que se opera dentro da universidade e é reproduzida nas estratégias discursivas dos mais variados agentes que assim tecem uma matriz nominalista, como lembra Jorge Ramos do Ó – pode bem concretizar-se noutros resultados que não a forma Estado.

 

Mas talvez este exercício seja mais do âmbito da chamada Ciência Política, um saber zandinguizante, de prospecção e acção, mais do que de conhecimento científico analítico-sintético; ou de uma concepção historiográfica ultrapassada – a que vê a História como mestra da vida e capaz de antecipar os futuros.»

 


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