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Mário Soares (1924-2017)

por Tempos Modernos, em 07.01.17

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publicado às 16:42

Gente desligada da realidade

por Tempos Modernos, em 07.01.17

Um tipo equaciona a bondade da sua crítica àqueles camaradas jornalistas que na sequência da indicação de Vieira da Silva para ministro do Trabalho foram para as televisões e jornais dizer que era uma nomeação que agradava à esquerda.

 

Infelizmente, a realidade dá-lhe sempre razão. Os ditos camaradas devem mesmo viver numa qualquer realidade alternativa, um misto de Twilight Zone e a Terra do Nunca, onde a raça das notícias das medidas do ministro não chega e onde eles se mostram incapazes de somar dois e dois. É que com Vieira da Silva é, há muitos anos, cada tiro cada melro.

 

Agora, lançou-se legislação em França pelo direito a não se ser contactado pelos patrões, nas folgas, nas férias e fora do horário de trabalho. A noção de que não é óbvio o carácter abusivo de muitos desses contactos evidencia-se pela necessidade que alguém sentiu de os proibir. 

 

Questionado acerca do assunto, o ministro português não se lembrou, mais uma vez, de grande coisa para dizer. Será assunto para debate e discussão em sede de contrato colectivo.

 

Em vez de fechar liminarmente a porta aos abusos, abriu antes uma janela aos patrões que insistam em trabalhar de modo desorganizado e sem planeamento.

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publicado às 16:41

Expressões atropeladas

por Tempos Modernos, em 07.01.17

Insiste-se em dizer-se e escrever-se que alguém é qualquer coisa dos sete costados. Benfiquista dos sete costados, alentejano dos sete costados e por aí fora. Ora, os mares é que são sete, os costados são quatro, tantos quanto os avôs que todos nós temos.

 

A expressão vem, pois, da genealogia. Assim, ser-se algo dos sete costados sugere que se desconhece um dos oitos bisavôs. Sugere até que alguém da família não se portou como devia.

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publicado às 14:58

Há um par de semanas, Pedro Tadeu defendeu que se ensine a ler os jornais e a ver televisão nas escolas - em linha, disse ele, com ideia semelhante de Pacheco Pereira. Já esta semana, queixou-se de que alguns querem alargar o número de incompatibilidades dos jornalistas e defendeu em vez disso uma declaração obrigatória de interesses.

 

Confesso que, em regra, sem ter nada de especial contra aquelas ideias, tenho sempre muita dificuldade em seguir a bondade para o jornalismo das soluções defendidas por Pedro Tadeu.

 

Há um par de anos, em vários debates (aqui e aqui, por exemplo) com Oscar Mascarenhas, então provedor do leitor do Diário de Notícias, o cronista defendia a total abertura da caixa de comentários do jornal - um poderoso íman de grunhice alarve cujo contributo à liberdade de expressão e à qualidade da informação é nulo.

 

Debaixo do aparente espírito libertário que perpassa a superfície, esconde-se uma montanha perversa. Esta ideia, tal como as dos seus dois recentes textos, é mais uma vez ruído e passa ao lado do essencial. Só que, Infelizmente, o que diz Tadeu corre bem o risco de parecer ajuda à solução de alguma coisa.

 

Ontem, António Guerreiro, no Público, escreveu mais um texto exemplar acerca da realidade dos jornais e das relações culturais de produção, desta vez a partir daquilo a que chamou "equívocos" de Pacheco Pereira. O assunto não é, sequer, alguma vez convocado, mas intersecta-se com questões como essa da educação para os media. Um ponto principal de conclusão do texto passa, talvez, pela ideia de que não é possível denunciar o processo daquilo que Guerreiro aproveita e que também chama, com alguma ironia, "nova ignorância" e "degeneração da cultura" e participar "activamente nos meios que a produzem". 

 

Sem necessidade de lembrar Platão e o muito velho discurso contra os novos, siga-se com António Guerreiro. O jornalista  apresenta uma tipologia dos nomes dados no último século a algo designado como "ignorância e degeneração da cultura": "tragédia da cultura", crise da cultura", "formas inautênticas da amizade", "semi-cultura", "amnésia planificada".

 

Até pelo continuado cenário se percebe que podem dar-se aulas disso às criancinhas, mas não é possível educar para ler os jornais. O grosso dos jornalistas andou nos desnecessários cursos de comunicação social a ler Merleau-Ponti, Foucault, Deleuze, Derrida e não aprendeu a lê-los. Chegam aos jornais e continuam por lá sem questionar as condições de produção do seu próprio discurso diário, sem saber sequer que isso existe e de que não se trata de minhoquices. Aliás, se se questionarem, neste momento, nem lá ficam.

 

Os jornalistas têm obrigações constitucionais de informar. E como bem lembra Alfredo Maia, têm até um código deontológico a respeitar. E está lá tudo. E não é preciso pensar nem em educação do povo, nem em aumento das incompatibilidades dos jornalistas. Ambas as propostas fazem tábua rasa das responsabilidades próprias da classe. E procura-se resolver no exterior o que são problemas e responsabilidade internas e diárias não assumidas pela corporação. Como diz a velha piada, basta um psicólogo para mudar uma lâmpada. É preciso é que a lâmpada queira mesmo mudar.

 

Acredita-se o mais das vezes naquilo em que se quer acreditar. Não anda aí a peregrina a ideia de pós-verdade, uma coisa velha de nome novo? O que as pessoas precisam de saber é que há um espaço onde se quiserem podem conhecer, em tempo real, e enquanto acontecem, os factos que cimentam as convicções. E, desejavelmente, esse espaço são os jornais. O drama é que, hoje, ninguém acredita que seja lá.

 

 

 

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publicado às 09:59


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