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Propostas equilibradas ou Os bois pelos nomes

por Tempos Modernos, em 21.10.12

 

 

(Foto: rtp.pt)

 

Pega como faísca em palha seca a ideia de que é virtuoso e da maior justiça forçar os beneficiários do rendimento social de inserção (RSI) a trabalhar em troca das comparticipações que recebem do Estado.

 

Daí a pôr os desempregados a limpar mata vai um salto. Esquecem-se de que os subsídios de desemprego são pagos com o dinheiro que os próprios empregados por conta de outrém descontam todos os meses para a segurança social.

 

Há motivos para que ambas as ideias sejam muito bem encaradas por uma maioria habituada ao reflexo condicionado. Até aqui, o desemprego era uma coisa que acontecia aos outros. E que acontecia a gente de outras classes sociais, uma malta que não convidava à empatia, demasiado longe de portas.

 

Esquece-se de que se as pessoas não trabalham é por não encontrarem uma ocupação digna e compensadora. Pouco lhes importa que um pai ou uma mãe, beneficiário do RSI, com filhos pequenos, obrigado a trabalhar tenha de encontrar quem lhe tome conta das crianças gastando toda a prestação em amas, creches e transportes. Irrelevante que boa parte dos salários não supra estas necessidades básicas.

 

Há escassos anos, ainda antes da crise se ter instalado de malas e bagagem no quadro mental dos portugueses, com base num estudo da Católica, Alfredo Bruto da Costa explicava,  num Prós & Contras que a maior parte dos pobres portugueses eram pensionistas ou gente que trabalhava.

 

Afinal, não eram desocupados, como se afirma na propaganda de alguns partidos, um ponto de vista que uma ruidosa parte da opinião pública toma como verdade incosntestável, mesmo à esquerda. Um ponto de vista que manda sempre os outros trabalhar e que encontra nos nus a causa para andarem rotos.

 

Esta ideia é perversa. Se no Estado e em Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), como as misericórdias, há espaço para acolher o trabalho gratuito dos beneficiários do RSI, é apenas por existir trabalho para fazer. Se existe a necessidade de limpar matas, então é porque ninguém as tem limpado? Porque é que acabaram os concursos para cantoneiros?

 

Haverá um bom motivo para que esses lugares não estejam disponíveis para quem procura emprego? Não existe um único bom motivo do ponto de vista da gestão dos recursos humanos para encher empresas e instituições com um exército de trabalhadores contrariados e desmotivados. Não existe um único bom motivo para o fazer do ponto de vista da gestão do mercado de trabalho. Que Estado e IPSS considerem esta mão-de-obra utilizável, evidencia como, para muita gente, o ser humano se transformou numa mercadoria.

 

Não se entende por isso que tantos se insurjam quando Fernando Ulrich propõe receber nos bancos e nas grandes empresas desempregados, pagos pelo orçamento de Estado. Todo o discurso montado o legitima. Estas ideias têm um rosto. E têm quem com elas contemporize. Infelizmente, como já se disse noutro lado, há pessoal que só as percebe quando se tornam pornográficas. Ou no dias em que os afectam a si ou aos seus filhos e netos.

 

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publicado às 12:14


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