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É tarefa impossível a de parar num qualquer programa de antena aberta ou numa entrevista da Margarida Rebelo Pinto sem se ficar com a nítida impressão de que o país se encontra repletinho de Camonistas. Embora numa outra vida até tenha havido um primeiro-ministro que lhes confundiu o número de cantos - ele gosta de apregoar que é mais números - Os Lusíadas recuperados pela opinião pública são um bom termómetro do Estado da Arte da conversa de café, também apelidada de cultura taxista ou sabedoria popular.
Com o conceito de "Velho do Restelo", muitas vezes pluralizado, atirado para os debates sobre bola radio e teledifundidos, fica reservada a "Inveja", palavra terminal do épico de Camões, para quem quer opinar sobre temas de política, cultura ou de televisão. Que é, dizem os pós e preopinantes, o grande mal nacional; que por isso é que não vamos a lado nenhum; que não passamos da cepa torta ou que, por sua causa, nunca mais entramos no pelotão da frente dos países civilizados.
Permitam-me discordar. Maior mal nacional é a falta de sentido cívico da esmagadora maioria dos portugueses. Uma gente que só se queixa quando lhe dói a pele para logo se esquecer do que dizia quando vê doer a do vizinho. Uma gente que prefere ver destruídos os direitos conquistados pelos funcionários públicos a lutar por iguais condições.
Toda esta conversa para me queixar do cavernícola que com a rua toda para estacionar em segunda fila preferiu fazê-lo em frente a um raro lugar vago, enquanto tratava de ir almoçar. Com o mesmo à vontade com que no restaurante fará sala após a refeição, enquanto se adensa o número dos que aguardam vez por uma mesa. Com a mesma displicência com que nos centros comerciais parará a viatura nos lugares marcados com cadeiras de rodas.
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