17
Jun 13
publicado por Tempos Modernos, às 12:35link do post | comentar

 

 

No modo elíptico que lhe é habitual, a Igreja Católica apelou aos professores para não fazerem greve aos exames e terem "todos os factores" em conta.

 

Até por isso vale a penar reparar hoje na página online da Rádio Renascença. Não é exclusivo, mas na zona nobre (ver foto) o tom é de crítica aos grevistas. São os alunos injustiçados, a estudante que questiona Mário Nogueira, o comentador que explica por que não faria greve.

 

Não teria de ser diferente. Em tempos de posições extremadas, repórteres diferentes têm forçosamente posições diferentes.

 

Mas neste caso da emissora católica há um dado a ter em conta. A Igreja Católica é dona de um imenso rol de colégios. Manuel Clemente, o novo patricarca de Lisboa, não o diz, mas a instituição a que pertence lucra objectivamente com o fim da escola pública, com o alargamento dos contratos de associação com colégios privados.

 


publicado por Tempos Modernos, às 10:36link do post | comentar

 

(Foto: aedfv.pt)

 

Uma bem colocada legião de sonoros apoiantes, mais ou menos convictos, de Passos Coelho tem tentado passar a ideia de que o Governo não é liberal: se fosse mesmo liberal nunca asfixiaria os contribuintes com impostos.

 

Tanta candura enternece. O aumento de impostos faz parte de qualquer bom arsenal de projecto económico darwinista, como é o neo-liberal.

 

E para ser mais eficaz, aumentam-se os impostos enquanto se liberalizam e embaratece dos despedimentos, reduzem pensões, subsídios de desemprego, destroem serviços públicos de saúde, educação, transportes. Arbitrariedade e precariedade.

 

Daí ao contribuinte achar que o Estado é demasiado grande e inútil vai um passo não tão longo quanto isso. A subida dos impostos reforça a ideia que se quer passar. Paga-se demasiado para ter o pouco que se tem. Entregue-se a prestação de serviços aos privados, é a decorrência mais lógica.

 

E uma decorrência que decorre dos planos de PSD e CDS-PP onde há muito se defende a entrega da educação a privados financiados através de contratos de associação. Em simultâneo promovem a elaboração de rankings como se fosse possível comparar resultados de colégios, com turmas pequenas, frequentados pelos filhos família lisboetas e portuenses, e onde os casos de transgressão escolar (os maus alunos e os mal comportados) são convidados a mudar de estabelecimento, se pudessem comparar com os de escolas de periferia, de subúrbio, forçadas (e bem) a aceitar a ideia de que nenhum estudante é dispensável.

 

À força de ser mil vezes repetido na comunicação social, à força de ser repetido mil vezes pela comunicação social, instala-se a ideia de que o Estado é mau gestor. Daí ser tão importante o que Ana Drago fez há dias na Assembleia da República, uma coisa, infelizmente, raramente vista: dizer o que pensa, mas dando os nomes aos bois.

 

A deputada do Bloco explicou na cara de outro deputado - e nos termos exactos em que isso deve ser explicado - como achava que esse mesmo parlamentar teria servido mal a gestão pública na CP, uma gestão feita em nome do povo, dos eleitores, dos contribuintes, do que lhe queiram chamar. “Aceitam os lugares do Estado, recebem o ordenado, sentam-se à mesa da Administração, destroem o serviço público e em cima da desgraça que fizeram vêm dizer que o Estado é mau gestor”, acusou Ana Drago dirigindo-se a Adriano Rafael Moreira, do PSD. Quantas vezes é que administradores destes não nos vêm perguntar “Qual é a parte de que não há dinheiro que ainda não perceberam?”

 

Na Educação, alguns dos que dizem defendê-la são também os primeiros a sabotá-la. Dizem defender a autonomia escolar e a proximidade, mas criam-se super-mega-hiper-agrupamentos, afastando para longe da comunidade o centro de decisão e a definição das políticas de gestão de cada escola. Dizem defender a qualidade da aprendizagem, mas aumenta-se o tamanho das turmas.

 

Podiam defender-se com a crise, com a falta de dinheiro. Significativo que não se recorra a esse argumento. Crato dá até o seu exemplo de estudante liceal numa turma do Pedro Nunes, como se fôssemos todos parvos; como se a sociedade tivesse ficado na mesma; como se fosse possível reproduzir em todo o país as condições culturais e económicas de uma pequena elite lisboeta, nos finais dos anos 1960, inícios da década de 1970. Com ou sem dinheiro, o ministro da Educação tomaria as mesmas medidas.

 

Dizem defender a qualidade do ensino, mas entregam-se turmas de quatro anos lectivos diferentes ao mesmo professor, forçando-o a preparar as lições pela rama. Reclama-se rigor, mas forçam-se os professores a estar 40 horas na escola atirando a preparação das aulas para os seus tempos de descanso.

 

Há vozes falando em Margaret Tatcher, a primeira-ministra que liquidou e partiu a coluna aos sindicatos britânicos e abriu caminho ao modelo económico que aí anda temos predominante. Este modelo onde os Miras Amarais depois de comprarem um banco, esvaziado de despesas e riscos, passados para os contribuintes, nos vêm perguntar “qual é a parte de que não há dinheiro que ainda não perceberam?”. Onde Ricardo Salgado, que preside a um dos grupos maiores detentores de rendas provenientes das parcerias público-privadas, nos vem dizer que preferimos "receber o subsídio de desemprego a trabalhar”.

 

Alguns já entenderam o braço de ferro, entre Governo e sindicatos. Outros, não perceberam nada: Francisco Assis, eterna promessa de algum PS, aspirante a uma coligação governamental com Paulo Portas, considerou, no Público de 23 de Maio, "ignóbil a convocação de uma greve de professores para o primeiro dia de exames nacionais. É como se os médicos decidissem fazer greve às urgências hospitalares. Incompreensível, indigno, inaceitável". Ou seja, miséria de comparações, entre a morte na marquesa e o voltar daqui a uns dias à sala de aulas para fazer um exame.

 

A derrota dos professores abrirá caminho ao fim da escola pública, transformada numa coisa residual para os mais pobres, para os miseráveis. Uma escola sem alternativas e sem preocupações de integração, de cidadania, de solidariedade nacional. Depois da derrota irão muito mais facilmente os restantes serviços públicos, tirando os de soberania. O Estado que estes defendem só não pode prescindir da repressão. Por algum motivo prevê agora mudar a lei da greve. Fará a vontade aos que só gostam de greves que não macem, que não lhes toquem a eles. Mudando a lei da greve, fará o gosto aos que se revoltam contra os grupos profissionais que têm sindicatos para os defender mas são incapazes de se organizar para terem quem os defenda - como se os sindicatos existissem sozinhos e por si, apenas em determinados sectores, e não fossem obra de pessoas que se associam livremente em defesa e conquista de direitos laborais.

 

Os trabalhadores do sector privado escusam de ficar satisfeitos com eventual derrota dos professores em greve. O fim de direitos conquistados pelos funcionários públicos servirão apenas o esvaziamento de referências sociais positivas. Nada acrescentarão à qualidade de vida e de trabalho dos privados, bem pelo contrário. Vão perder médicos, educação, a capacidade nacional para desenvolver sectores produtivos de qualidade, fazer crescer a economia, o emprego e fugir aos ditames das tróicas e credores.

 

Os Governos não são os únicos responsáveis pelo que acontece na cidade. A demissão, o egoísmo e a inconsequência cívica são uma praga. Uma peste num mundo onde só o mais forte tem direito à liberdade.


16
Jun 13
publicado por Tempos Modernos, às 20:16link do post | comentar

 

(Foto: tvi.iol.pt)

 

A notícia de que o Governo se terá comprometido com a tróica a aumentar o número de alunos por turma não tem tido especial eco junto da comunicação social.

 

No limite ainda haverá quem defenda que basta um professor armado de megafone debitando a matéria para umas centenas de alunos encafuados num pavilhão desportivo. Tem-se ouvido de tudo aos comentadores pró-austeridade e a tróica quer é que Portugal pague aos credores, quer lá saber se depois da cura não haja ninguém educado para levar o país por outros caminhos.

 

Mas que têm a dizer sobre a sobrelotação das turmas dos seus filhos os pais zangados com os professores em greve? Os que ainda acreditam não haver dinheiro para mais, em que medida reclamam contra as rendas das PPP ou o pagamento dos buracos dos BPN? Confundir o alvo e os responsáveis pelas nossas dores é hábito demasiado disseminado.


publicado por Tempos Modernos, às 13:55link do post | comentar

José Manuel Fernandes que, durante anos e enquanto diretor, descaracterizou o que era um dos melhores diários portugueses (sem que as vendas do jornal subissem, bem antes pelo contrário) e se meteu na inventona das escutas de Belém afirmou esta sexta-feira que "a boa escola pública não depende da garantia de emprego dos docentes, mas da sua responsabilização pelos resultados dos alunos".

 

Catita. José Manuel Fernandes rodopia pelo comentário televisivo, imagina‐se que remunerado. Apesar do mau serviço prestado (os seus resultados provam-no) mantém uma página semanal no Público que dirigiu, totalmente reservada para a sua escrita, ideias e agenda pró-estado a que chegámos.

 

E é este jornalista inamovível, prestador de maus serviços, mas de emprego garantido e supinamente bem pago, que vem falar das garantias nos emprego dos outros?


12
Jun 13
publicado por Tempos Modernos, às 13:03link do post | comentar

 

(Foto: rr.sapo.pt)

 

Desdobra-se o comentário pró-governamental em acusações à ocasião escolhida pelos professores para fazer greve.

 

Nem repararam que os anúncios das mudanças que conduziram a classe à greve ainda agora foram anunciadas.

 

Propositadamente, à beira do fim das aulas. Para esvaziar o protesto, deixando os visados de mãos atadas na escolha dos modos (e datas) de contestação.

 

Aproveitar que as férias se aproximam para lançar medidas impopulares faz, aliás, parte do cardápio das canalhices habituais feitas por  governos. A recusa de Crato em cumprir a decisão do Tribunal Arbitral é só uma novidadezinha num estilo muito antigo.

 

 

No comentário pró-governamental, pode comparar-se a não realização de um exame com casos de vida ou de morte, arrancar cabelos preocupados com um atraso de algumas semanas - perfeitamente recuperável - na vida dos adolescentes.

 

Isso não lhe dá razão. Apenas o deixa alinhado com os defensores de um certo tipo de greve.

 


10
Jun 13
publicado por Tempos Modernos, às 12:15link do post | comentar

Luís Pedro Nunes, do alto do seu púlpito n’O Eixo do Mal, da SIC Notícias, acusa a FENPROF de não se renovar e manter Mário Nogueira* como secretário-geral há demasiados anos.

 

Mário Nogueira foi eleito pela primeira vez em 2007 para o lugar que ocupa - e reeleito duas vezes desde então. Luís Pedro Nunes é director do jornal satírico O Inimigo Público desde 2003, mas não consta que alguém tenha votado nele. É só o dono da bicicleta.

 

*Figura que nem me é particularmente simpática


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