19
Nov 13
publicado por Tempos Modernos, às 19:38link do post | comentar

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

 

David Mourão-Ferreira


17
Mai 13
publicado por Tempos Modernos, às 14:42link do post | comentar

Vi o poeta a usar o multibanco numa estação do metro. Confirmaria se já tinham feito a transferência?


25
Dez 12
publicado por Tempos Modernos, às 11:46link do post | comentar | ver comentários (1)

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que se veja à mesa o meu lugar vazio

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que só uma voz me evoque a sós consigo

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que não viva já ninguém meu conhecido

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que nem vivo esteja um verso deste livro

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que terei de novo o Nada a sós comigo

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que nem o Natal terá qualquer sentido

 

Há-de vir um Natal e será o primeiro

em que o Nada retome a cor do Infinito

 

                     David Mourão-Ferreira in Cancioneiro de Natal

 


14
Out 12
publicado por Tempos Modernos, às 18:16link do post | comentar | ver comentários (1)

 

 

 

Durante as anteriores depressões mundiais, não existia internet, nem redes sociais.

 

A destruição de África nos pós-independências, acometida pela descida dos preços das matérias primas e forçada a assumir empréstimos esmagadores, não comoveu ninguém fora do humanitarismo pop dos Live Aid.

 

Os japoneses dos anos 1990 e os sul-americanos da década de 1980 sofreram dentro de fronteiras o seu próprio empobrecimento.

 

Em Portugal, a zanga tem trepado. Acabou o tempo dos encolheres de ombros conformados, crentes nas virtudes da austeridade cega e na fábula da cigara e da formiga. Não são já esses a maioria dos que se ouvem nos directos televisivos. Nenhum governante sai já à rua sozinho. Não tarda, comentadores irão pelo mesmo caminho.

 

Se, como tudo indica - a cupidez criminosa da Finança, do FMI e dos bancos centrais não dá para mais -, a crise europeia e norte-americana galgar os muros, não se espere que os povos voltem a sentir-se sozinhos. A rede tratará de unir os pontos, a aproximar as fomes, as misérias, as falências. E identificará seus autores e responsáveis. No Ocidente, o apagão digital dificilmente será consentido.

 

Duvida-se que a humanidade esperasse vir a viver tempos tão interessantes.

 


13
Out 12
publicado por Tempos Modernos, às 11:48link do post | comentar

 

(Letra de François Villon)

 

 

 

 

 

(Letra de Luís Vaz de Camões)


25
Abr 12
publicado por Tempos Modernos, às 10:48link do post | comentar | ver comentários (1)

 I

 

É verdade, vivo em tempo de trevas!

É insensata toda a palavra ingénua. Uma testa lisa

Revela insensibilidade. Os que riem

Riem porque ainda não receberam

A terrível notícia.

 

Que tempos são estes, em que

Uma conversa sobre árvores é quase um crime

Porque traz em si um silêncio sobre tanta monstruosidade?

Aquele ali, tranquilo a atravessar a rua,

Não estará já disponível para os amigos

Em apuros?

 

É verdade: ainda ganho o meu sustento.

Mas acreditem: é puro acaso. Nada

Do que eu faço me dá o direito de comer bem.

Por acaso fui poupado (quando a sorte me faltar, estou perdido.)

 

Dizem-me: Come e bebe! Agradece por teres o que tens!

Mas como posso eu comer e beber quando

Roubo ao faminto o que como e

O meu copo de água falta a quem morre de sede?

E apesar disso eu como e bebo.

 

Também eu gostava de ter sabedoria.

Nos velhos livros está escrito o que é ser sábio:

Retirar-se das querelas do mundo e passar

Este breve tempo sem medo.

E também viver sem violência

Pagar o mal com o bem

Não realizar os desejos, mas esquecê-los.

Ser sábio é isto.

E eu nada sei fazer!

É verdade, vivo em tempo de trevas!

 

II

 

Cheguei às cidades nos tempos da desordem

Quando aí grassava a fome

Vim viver com os homens nos tempos da revolta

E com eles me revoltei.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

 

Comi o meu pão entre as batalhas

Deitei-me a dormir entre os assassinos

Dei-me ao amor sem cuidados

E olhei a natureza sem paciência.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

 

No meu tempo as ruas iam dar ao pântano.

A língua traiu-me ao carniceiro.

Pouco podia fazer. Mas os senhores do mundo

Sem mim estavam mais seguros, esperava eu.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

 

As forças eram poucas. A meta

Estava muito longe

Claramente visível, mas nem por isso

Ao meu alcance.

E assim passou o tempo

Que na terra me foi dado.

 

III

 

Vós, que surgireis do dilúvio

Em que nós nos afundámos

Quando falardes das nossas franquezas

Lembrai-vos

Também do tempo de trevas

A que escapastes

 

Pois nós, mudando mais vezes de país que de sapatos, atravessámos

As guerras de classes, desesperados

Ao ver só injustiça e não revolta.

 

E afinal sabemos:

Também o ódio contra a baixeza

Desfigura as feições.

Também a cólera contra a injustiça

Torna a voz rouca. Ah, nós

Que queríamos desbravar o terreno para a amabilidade

Não soubemos afinal ser amáveis.

 

Mas vós, quando chegar a hora

De o homem ajudar o homem

Lembrai-vos de nós com indulgência.

 

 

Tradução de João Barreto in Rosa do Mundo, 2001 Poemas para o Futuro, Lisboa, Assírio & Alvim, Agosto de 2001

tags: ,

07
Mar 11
publicado por Tempos Modernos, às 20:02link do post | comentar

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

 

 

Manuel Bandeira

 

 


mais sobre mim
Fevereiro 2018
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
24

25
26
27
28


pesquisar neste blog
 
subscrever feeds
blogs SAPO